Ter uma boa noite de descanso, para a maioria dos adultos, parece uma realidade inalcançável. Entre os diversos motivos que fazem desse momento um verdadeiro pesadelo, estão os distúrbios de sono, problemas que podem ter desde origem psicológica até respiratória.
O tratamento dos distúrbios, em geral, é feito de forma multidisciplinar e, nessa equipe, o cirurgião-dentista está incluso, com o papel de analisar manifestações que já são bastante conhecidas dentro do consultório odontológico, como o bruxismo.
Para isso, é importante manter-se informado sobre quais são os distúrbios que podem ser diagnosticados e tratados pela odontologia, como diagnosticá-los e quais tratamentos estão disponíveis. Assim, o profissional conseguirá proporcionar resultados satisfatórios para os pacientes e, até mesmo, destacar-se no mercado. Siga a leitura e saiba mais!
A importância do sono para a qualidade de vida
Dormir é uma função biológica imprescindível para o nosso funcionamento, uma vez que é responsável pela consolidação da memória, pelo fortalecimento do sistema imunológico, pela termorregulação, conservação e restauração da energia, pelo descanso muscular, pela restauração do metabolismo energético cerebral e pelo aprendizado.
A falta de uma boa noite de sono pode gerar diversas consequências na vida do indivíduo, como maiores riscos de acidentes de trânsito, depressão, baixo rendimento nas tarefas diárias, estilo de vida estressante, doenças físicas e, até mesmo, abuso de álcool e outras drogas. Esses são apenas alguns exemplos de uma grande lista de situações negativas que podem surgir na rotina de quem não dorme bem.
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Como funciona o sono e quais são suas fases?
Compreender como funciona o momento de dormir também é algo que dentistas devem saber, sobretudo se querem atuar na área da odontologia do sono. Afinal, algumas manifestações que explicaremos acontecem em etapas específicas, como o bruxismo, que ocorre durante o estágio 2 do sono leve ou durante a troca das fases.
O momento de dormir pode ser dividido em até cinco estágios, que estão relacionados a cada fase do sono e que duram, em média, de 60 a 90 minutos cada.
Qual o papel da odontologia na medicina do sono?
Justamente por interferir em tantos aspectos da saúde, o sono também se relaciona com diversos ramos de atuação, como a odontologia. É o dentista que tem contato direto com a boca do paciente, área do corpo ligada às vias aéreas que, por conseguinte, conecta-se com distúrbios do sono, como a síndrome da apneia obstrutiva do sono.
O dentista, portanto, pode contribuir muito em relação à avaliação clínica e à execução de terapias que estejam de acordo com a necessidade do paciente.
Principais distúrbios do sono na rotina odontológica
Distúrbio do sono é um conceito genérico para abranger um grande leque de manifestações que ocorrem durante a hora de dormir e que prejudicam esse momento, gerando consequências para o dia a dia do paciente. Alguns exemplos são insônias, parassonias e distúrbios respiratórios do sono — este último está relacionado com a odontologia, como veremos.
Atualmente, pesquisadores da área apontam que diversos fatores podem contribuir para o surgimento de distúrbios de sono, como doenças metabólicas e cardiovasculares, tabagismo, sobrepeso e obesidade, assim como hábitos, estilo de vida e fatores externos.
No campo da odontologia, os distúrbios de sono que mais chamam a atenção são: bruxismo, ronco e distúrbios respiratórios do sono, que incluem os três tipos de apneia — obstrutiva, central e mista. A seguir, vamos compreender melhor cada uma dessas manifestações.
Bruxismo do sono: o que opõe a atividade noturna à diurna?
O bruxismo é uma das parafunções orais bastante conhecidas dentro do consultório, sendo caracterizado por atividade diurna e/ou noturna.
Focaremos no bruxismo do sono, que pode ser caracterizado por movimentos estereotipados, como ranger, bater ou apertar os dentes. Geralmente, são associados à fisiologia do sono, como explica o artigo “Avaliação dos fatores de risco do bruxismo do sono”. Recentemente, passou a ser classificado como um transtorno do movimento relacionado ao sono.
O que opõe o bruxismo do sono ao diurno? Informações do artigo “Bruxismo do sono” apontam distintos estados de consciência (sono de vigília) e diferentes estados fisiológicos com influências na excitabilidade oral motora. O bruxismo do sono e o diurno são diferentes e têm características próprias.
Enquanto o bruxismo diurno realiza atividade semivoluntária, ou seja, pode estar relacionado a uma mania da pessoa enquanto está acordada, o noturno é totalmente inconsciente. Segundo dados do trabalho “Avaliação dos fatores de risco do bruxismo do sono”, é difícil ter números concretos da porcentagem de pessoas com bruxismo noturno, justamente por ser uma condição involuntária e inconsciente, mas estima-se que 18,8% dos adultos e 35,3% das crianças tenham.
Etiologia do bruxismo
Ainda são realizados diversos estudos em relação ao assunto, mas já é de conhecimento geral que as causas podem ser relacionadas ao emocional/psicológico, ambiente de dormir, doenças de vias aéreas superiores, ingestão de álcool, cafeína e cigarro, medicamentos específicos e atividades involuntárias rítmicas da musculatura mastigatória, conforme explica o artigo “Avaliação dos fatores de risco do bruxismo do sono”.
Sintomas e sinais clínicos
Em geral, os pacientes com bruxismo de sono apontam:
- Dor de cabeça na região temporal;
- Travamento ou dificuldade de abertura bucal e hipersensibilidade dentária;
- Musculatura mandibular rígida ou fadigada;
Clinicamente, é possível perceber desgaste dentário, hipertrofia muscular na região de masseter, língua edentada, desgaste dentário incompatível com a idade, abfração e fraturas de restaurações ou dentes, como informa o artigo “Avaliação dos fatores de risco do bruxismo do sono”.
Diagnóstico no consultório e polissonografia
Um dos pontos que indicam o bruxismo são os relatos do próprio paciente, que, em geral, reclama de dor ou tensão nos músculos da face ao acordar, assim como o ranger dos dentes, que pode ser percebido pelo companheiro. O dentista também deve analisar os dentes e notar se há desgaste anormal e hipertrofia do masseter.
Mas lembre-se: esses dois aspectos não são, por si só, definidores. É preciso investigar mais. Polissonografia é uma grande aliada no diagnóstico. Infelizmente, nem sempre é possível contar com essa técnica, mas, se estiver ao seu alcance, vale a pena utilizá-la.
Abordagem terapêutica multidisciplinar
Existem diversas alternativas para o tratamento de bruxismo, que, em geral, pode ser feito de forma multidisciplinar, com a ajuda de fármacos, psicoterapia e, claro, da odontologia. O artigo “Bruxismo do sono” explica que o uso de remédios deve ser feito em casos mais graves e agudos, por um curto período de tempo.
Já o psicólogo será essencial para auxiliar o paciente com mudanças de hábitos focadas na higiene do sono, técnicas de relaxamento, controle do estresse, entre outras terapias que o profissional julgar necessárias para o caso do indivíduo. Na odontologia, são feitos ajuste oclusal, tratamento ortodôntico e restaurações dentárias. Também é recomendado o uso de placas para bruxismo.
Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS): conceitos e mecanismos
Mais comum entre o gênero masculino, e agravada com a idade e o aumento de peso, a SAOS é um distúrbio crônico, progressivo, incapacitante e com consequências sistêmicas graves. Entre os tipos de apneia que comentamos anteriormente, ela se categoriza na central e é a mais comum; por isso, focaremos nela.
Segundo o artigo “A odontologia na síndrome da apneia obstrutiva do sono”, a SAOS ocorre durante o sono e como consequência do posicionamento posterior da língua, que pode fazer com que aconteça a redução substancial (hipopneia) ou a cessão completa (apneia) do fluxo de ar para os pulmões, durante um período de 10 segundos, mesmo havendo esforços respiratórios.
Quando isso ocorre, a pessoa continua a tentar respirar, até que passa para a hipoxemia (baixo nível de oxigênio no sangue) e, nesse estado, o indivíduo acorda. Esse ato de despertar faz com que sejam desobstruídas as vias aéreas superiores (VAS). A passagem de ar obstruída faz com que ocorram ronco e apneia.
Etiologia e fatores de risco
Assim como o bruxismo, a SAOS também é multifatorial. Um dos motivos que contribuem para o surgimento do distúrbio são alterações anatômicas nas vias aéreas superiores e no esqueleto craniofacial associadas a alterações neuromusculares da faringe. Além disso, outros fatores contribuem, como obesidade, aumento do tecido linfoide da faringe, obstrução nasal, anormalidades craniofaciais e endócrinas e histórico familiar, de acordo com o trabalho “A odontologia na síndrome da apneia obstrutiva do sono”.
Sintomas e manifestações sistêmicas
É muito comum que esses pacientes relatem os seguintes episódios:
- Ronco alternado por momentos de silêncio;
- Sonolência diurna excessiva;
- Movimentação noturna;
- Comportamento anormal enquanto dorme;
- Respiração pela boca;
- Disfunção sexual;
- Irritabilidade;
- Depressão e ansiedade;
- Sensação de sufocamento ao acordar;
- Privação de sono.
Diagnóstico clínico e anamnese direcionada
Ao receber o paciente no consultório, você pode começar o diagnóstico pela anamnese. Como podemos ver no tópico anterior, alguns indícios serão coletados com a ajuda do indivíduo, ao relatar melhor como é a relação dele com o sono. Portanto, não deixe escapar as seguintes perguntas:
- O parceiro/parceira relata períodos de ronco e silêncio?
- Sente-se cansado com frequência?
- Há alterações sistêmicas? Diabetes, hipotireoidismo etc.
Além dessa etapa, exames físicos e imagiológicos são importantes e, se possível, a polissonografia.
Opções de tratamento: do CPAP à cirurgia
Segundo o artigo “Apneia obstrutiva do sono: diagnóstico e tratamento”, é importante contar com uma equipe multidisciplinar para atender o paciente em todas as necessidades. Na parte da odontologia, o artigo aponta o uso de aparelhos intrabucais para casos leves e moderados, já que há relatos de bons resultados para esses grupos de pacientes.
Lembre-se de que, para essa opção, é necessário que o indivíduo tenha, no mínimo, dez dentes. Outra alternativa é o uso de aparelhos que injetam ar comprimido. Essa terapia é indicada a curto prazo para pacientes com quadro leve a moderado. Para os casos de moderado a severo, há a opção da uvulopalatofaringoplastia, que alarga o espaço aéreo faríngeo.
O papel dos exames de imagem e da cefalometria na odontologia do sono
Para além da observação clínica direta em consultório, o cirurgião-dentista dispõe de ferramentas tecnológicas e radiográficas fundamentais para mapear as estruturas do paciente. Os exames de imagem tridimensionais, em especial a Tomografia Computadorizada de Feixe Cônico (TCFC), revolucionaram a análise das vias aéreas superiores (VAS).
Por meio dela, o profissional consegue mensurar com precisão milimétrica a área de secção transversal e o volume total da faringe, identificando os pontos exatos de maior estreitamento na região da orofaringe e nasofaringe.
Adicionalmente, a telerradiografia lateral associada à análise cefalométrica continua sendo uma aliada prática e indispensável. Por meio de traçados específicos, o dentista avalia o espaço posterior da via aérea (PAS), a distância do osso hioide até o plano mandibular e o comprimento total do palato mole.
Pacientes com padrão de crescimento facial vertical (dolicofaciais) ou que apresentam retrognatismo mandibular acentuado frequentemente exibem um espaço aéreo posterior reduzido. Esses dados métricos não apenas auxiliam na triagem e no entendimento biomecânico da Apneia Obstrutiva do Sono, mas também fornecem parâmetros visuais para prever o sucesso das intervenções ortopédicas ou ortodônticas.
Mecanismo de ação e seleção dos aparelhos intraorais (AIO)
Quando o diagnóstico aponta para casos de ronco primário ou SAOS em níveis leves a moderados, os aparelhos intraorais (AIO) surgem como uma das soluções mais eficazes e com excelente adesão por parte dos pacientes. O principal modelo utilizado na prática clínica é o Aparelho de Avanço Mandibular (AAM).
Seu mecanismo de ação baseia-se no posicionamento mecânico e controlado da mandíbula para a frente durante o sono. Esse deslocamento traciona os tecidos moles da garganta, o osso hioide e os músculos genioglosso e genio-hioide. Como resultado direto, há o aumento do diâmetro lateral da faringe e a estabilização da base da língua, impedindo que ela sofra um colapso posterior e obstrua a passagem do fluxo de ar.
Existe também a opção dos Aparelhos Retentores de Língua (ARL), indicados especificamente para pacientes edêntulos totais ou que possuem suporte periodontal fragilizado, impossibilitando o apoio nos dentes. Independentemente da escolha, o segredo do sucesso terapêutico reside na titulação progressiva.
O dentista não deve realizar o avanço máximo logo na primeira consulta. A mandíbula é movida milímetro a milímetro ao longo das semanas, respeitando o limite fisiológico da Articulação Temporomandibular (ATM) e maximizando o conforto do paciente.
Efeitos colaterais e contraindicações do tratamento com aparelhos intraorais
Embora os benefícios dos aparelhos intraorais superem amplamente os riscos, o cirurgião-dentista precisa conduzir o tratamento ciente dos possíveis efeitos colaterais a curto e longo prazo. Nas semanas iniciais de uso, é comum que o paciente relate hipersalivação, sensação de boca seca, discreto desconforto muscular na região do masseter ou sensibilidade nos dentes ao acordar.
Essas manifestações costumam ser transitórias e diminuem à medida que a musculatura se adapta ao dispositivo de avanço. No entanto, o uso contínuo por vários anos pode causar pequenas alterações oclusais, como a redução do overjet e do overbite, ou até mesmo uma leve inclinação dos incisivos.
Diante disso, existem contraindicações estritas que devem ser respeitadas. Pacientes com doença periodontal severa ativa, mobilidade dentária generalizada ou número insuficiente de elementos dentários ancorados (menos de 10 dentes por arcada) não devem utilizar os aparelhos de avanço convencional.
Da mesma forma, indivíduos que sofrem de Disfunção Temporomandibular (DTM) articular grave ou intracapsular ativa precisam ter a sua dor estabilizada antes de iniciar qualquer terapia de posicionamento mandibular respiratório.
Abordagem da odontopediatria: distúrbios de sono na infância
A atuação da odontologia do sono não se restringe aos adultos; ela desempenha um papel preventivo crucial na infância. Embora o bruxismo infantil seja frequentemente associado a fatores emocionais ou picos de crescimento, o dentista deve estar atento aos sinais da Síndrome do Respirador Bucal.
Crianças que respiram rotineiramente pela boca costumam apresentar hipertrofia das amígdalas e das adenoides, condições que estreitam as vias aéreas e fragmentam o sono. A falta de oxigenação adequada e o posicionamento crônico da língua no assoalho bucal geram graves consequências no desenvolvimento craniofacial, resultando em palato ogival (profundo e estreito), mordida cruzada posterior e crescimento mandibular deficitário.
Durante a anamnese com os pais, é vital investigar se a criança ronca, range os dentes, baba no travesseiro, apresenta episódios de terror noturno ou acorda irritada. A privação crônica de sono na infância mimetiza os sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), manifestando-se como hiperatividade diurna, déficit de aprendizado e queda no rendimento escolar.
O diagnóstico precoce pelo odontopediatra permite intervenções ortopédicas imediatas, como a expansão rápida da maxila, que amplia a base nasal e melhora drasticamente o padrão respiratório da criança.
A importância do networking médico: construindo a equipe multidisciplinar
Por ser uma área de intersecção na saúde, o manejo bem-sucedido do sono exige que o cirurgião-dentista compreenda perfeitamente os limites de sua atuação e trabalhe em estreita sinergia com a medicina. O diagnóstico definitivo de patologias como a apneia obstrutiva do sono é de competência exclusiva do médico especialista (geralmente neurologistas, otorrinolaringologistas ou pneumologistas), baseado no laudo técnico obtido pelo exame de polissonografia.
O papel do dentista é o de um parceiro estratégico que executa e acompanha a terapia com os dispositivos intraorais após o encaminhamento médico. Para consolidar essa parceria e promover uma atuação integrada entre médicos e cirurgiões-dentistas, o dentista deve formalizar sua conduta ética.
Ao confeccionar um aparelho intraoral, envie um relatório detalhado ao médico assistente, explicando o design do dispositivo escolhido, o planejamento do avanço mandibular milimétrico e os resultados clínicos observados na oclusão e nos sintomas do paciente. Esse intercâmbio técnico de informações cria uma rede de confiança mútua, fortalece o networking profissional e, acima de tudo, garante que o paciente receba um tratamento integral, coordenado e focado na sua plena qualidade de vida.
Compreender as especificidades de cada distúrbio é essencial para estudar a fundo o caso de cada paciente e, de forma multidisciplinar, propor soluções eficazes e que possam melhorar a qualidade de vida do indivíduo.
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