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Doenças ocupacionais na odontologia: quais são os seus riscos?

Doenças ocupacionais na odontologia: quais são os seus riscos?

As doenças ocupacionais na odontologia não são nada incomuns. A rotina, o ambiente de trabalho e os movimentos repetitivos são fatores que contribuem para que cirurgiões-dentistas possam desenvolver algum quadro.

Apesar de muito se falar dos riscos ergonômicos, a verdade é que o profissional está exposto a outros problemas, como a perda auditiva induzida por ruído (Pair), e os relacionados com a saúde mental.

Portanto, as doenças ocupacionais na odontologia abrangem diversos pontos, e conhecer situações que podem gerar riscos é essencial para cuidar bem da saúde e encontrar soluções para se prevenir. Quer saber mais? Continue a leitura deste texto e confira tudo o que precisa saber sobre o assunto.

O que são doenças ocupacionais?

As doenças ocupacionais são aquelas que estão diretamente ligadas à atividade exercida ou às condições do trabalho.

Os riscos ocupacionais, como explica o artigo “Riscos físicos e ergonômicos de dentistas em clínicas de hospitais”, são as possibilidades de perda ou dano, e a probabilidade disso acontecer. No caso da odontologia, essas situações são físicas, químicas, ergonômicas, biológicas, mecânicas ou de acidentes.

  • Riscos físicos: estão relacionados à exposição de agentes físicos, como ruídos, vibrações, radiações ionizantes ou não-ionizantes, temperaturas extremas, iluminação precária, entre outros. Podemos dar como exemplo as canetas de alta rotação, os equipamentos de laser (fotopolimerizador), os aparelhos que emitem radiação e as autoclaves.
  • Riscos químicos: são poeiras, névoas, gases e vapores causados por desinfetantes, como hipoclorito de sódio e ácido peracético.
  • Riscos ergonômicos: provavelmente os mais conhecidos, são consequência da má postura durante horas, de movimentos repetitivos, da falta de um auxiliar para os procedimentos, etc.
  • Riscos mecânicos e de acidentes: têm relação com o ambiente inadequado ou com aparelhos com algum tipo de problema que possam gerar perigo.
  • Riscos biológicos: podem acontecer em situações de contato com materiais contaminados ou outro tipo de acidente com fluidos, como sangue. Esses episódios são bastante preocupantes para a saúde do profissional.

Não podemos deixar de citar o conforto, que pode ser prejudicado pela situação do ambiente de trabalho, pela falta de equipamentos, pela ausência de banheiros adequados e de itens de higiene pessoal.

Odontologista atendendo menina

Para saber como prevenir doenças ocupacionais em odontologia, é necessário conhecer quais aspectos apresentam riscos.

Esse conjunto de situações entram como riscos ocupacionais que, nos piores quadros, podem levar a doenças e, por isso, é essencial conhecê-las e saber quais as consequências da exposição a elas.

Principais doenças ocupacionais

Afinal, quais são as doenças ocupacionais em odontologia? Ao analisarmos os riscos, podemos ver que elas podem ser originadas por diversos fatores e, portanto, atingir os profissionais de diferentes formas. Em seguida, detalhamos as principais.

Pair

Você já sentiu incômodo após horas trabalhando com equipamentos que emitem ruídos altos? Essa situação é mais comum do que parece e, por isso, a Pair faz parte da lista de doenças ocupacionais em odontologia mais comuns.

Ruído, de acordo com o dicionário Oxford Languages, são sons (ou um conjunto deles) desagradáveis ao ouvido e podem ser gerados por diversos fatores, como quedas, choques, pancadas e outros.

Dentro do consultório odontológico, os ruídos são extremamente comuns, e são provenientes da caneta de alta rotação, do micro-motor, do compressor, dos sugadores, além dos sons externos.

A professora da Unicesumar, especialista em odontologia do trabalho, Luciana F. Netto (CRO. 16.933), explica que o consultório é um ambiente de diversos ruídos causados por aparelhos que atingem 70 a 75 decibéis, ou seja, ultrapassam o recomendado, que é 60 decibéis.

“Muitos dentistas não têm consciência dos impactos dos ruídos, o que é bem preocupante. Estar exposto a eles todos os dias, por muitos anos e durante horas, pode causar Pair e, até mesmo, surdez aguda”, explica a professora.

Com o tempo, a exposição a tantos ruídos prejudica a saúde auditiva do cirurgião-dentista, e um dos primeiros sintomas são as dificuldades em compreender palavras durante conversas.

A perda auditiva induzida por ruído, além de diminuir a capacidade de escuta do dentista, pode até mesmo atingir a saúde mental do profissional e a capacidade de concentração, especialmente em tarefas que exigem muito do odontologista.

Segundo o artigo “Riscos ocupacionais na prática odontológica”, a Pair tem como característica ser sempre neurossensorial, na maioria dos casos, é bilateral e a perda tem seu início nas frequências 6.000, 4.000 e/ou 3.000 Hz e progride lentamente para as frequências 8.000, 2.000, 1.000, 500 e 250 Hz.

Prevenção

Para ter mais controle da situação, é indicado que o cirurgião-dentista realize audiogramas periodicamente para que possam ser feitas comparações. O ideal é que seja feito um no começo das atividades no consultório, o segundo após seis meses e, depois, anualmente.

No dia a dia, em situações de ruído alto, é importante adotar o uso de auriculares de inserção para proteger o ouvido. Além disso, a manutenção dos equipamentos, como a caneta de alta rotação, é essencial para evitar o desgaste das peças e, consequentemente, os ruídos altos.

A professora Luciana também explica que, atualmente, há no mercado equipamentos que produzem menos ruídos, entretanto, os valores são altos. Para quem tiver a possibilidade de investir, será uma boa alternativa. Já quem não tem, deve buscar proteção para os ouvidos.

Fadiga visual

Na odontologia, uma boa visão é crucial para um trabalho bem feito. Afinal, essa é uma área de atuação muito visual, que requer atenção e observação a todos os detalhes dos dentes, dos tecidos e de outros componentes da cavidade oral.

Dentista com face shield analisando paciente

A fadiga visual é comum enquanto doença ocupacional na área da saúde.

Dessa forma, não há dúvidas do quanto é exigido da visão do cirurgião-dentista. Afinal, além dos detalhes, é preciso trabalhar driblando as sombras que podem ser causadas pela própria estrutura da cavidade oral.

Diante disso, é comum que dentistas sofram com a famosa fadiga visual, consequência de horas de trabalho em que a vista é forçada. Entre os sintomas, podemos citar a dor nos músculos ao redor do globo ocular, olhos com vermelhidão, imagens se formando de forma pouco nítida, dores de cabeça, náuseas e, até mesmo, irritabilidade emocional e depressão.

Prevenção

A prevenção da fadiga visual começa com o projeto arquitetônico do consultório. O ideal é que dentistas invistam em profissionais capacitados e especialistas em preparar espaços destinados ao atendimento odontológico.

O projeto deve dar atenção especial à iluminação, que necessita cumprir as normas regulamentadoras, como explicaremos adiante neste texto. É necessário que a luz não faça sombras ou não seja o suficiente.

A cadeira odontológica deve estar posicionada de forma que aproveite o melhor da luz. O refletor também é essencial e, por isso, o cirurgião-dentista deve investir em um bom equipamento.

Fazer pausas entre trabalhos mais complexos também é primordial. Tire um tempo para fechar os olhos, evitar telas e descansar a cabeça e a visão. Uma alternativa são os exercícios para os músculos da região, como o ioga facial.

A prática pode ser feita em qualquer lugar e não tem nenhuma dificuldade. Para aprender, você pode conferir o vídeo do canal Sesc Thermas de Presidente Prudente.

Fadiga

A fadiga é um sintoma que, muitas vezes, é ignorado e tomado como normal por profissionais de diferentes áreas. O cirurgião-dentista também pode ser atingido por essa sensação e, portanto, é necessário estar atento.

Alguns profissionais de odontologia chegam a fazer carga-horária de mais de 40 horas semanais e, com o tempo, o corpo e a mente sentirão o peso desse estilo de vida.

Luciana explica que essa carga extensa e “acima do normal” pode prejudicar profissionais da odontologia de diversas formas, inclusive na vida social e familiar. A ausência desses dois pilares e, também, do lazer e do descanso, pode gerar malefícios.

“A concorrência, as metas e manter o reconhecimento do consultório podem fazer com que fiquemos escravos das horas de trabalho. Esquecemos que temos vida, amigos e familiares. Precisamos do nosso tempo para fazermos o que gostamos e, assim, sermos mais produtivos. Nunca vamos dar o nosso melhor se não estivermos bem”, conta Luciana.

A fadiga está relacionada à queda da capacidade de produção, à perda de motivação para realizar qualquer atividade e, nos piores casos, pode levar a doenças físicas e psicológicas, como síndrome de burnout, depressão, ansiedade e outros.

A sensação pode ser dividida em dois grupos: a fadiga muscular e a generalizada. Nesta última, o sintoma mais comum é a desmotivação para fazer qualquer coisa.

Já a fadiga muscular está relacionada à dor e ao sentimento de sobrecarga física. Dessa forma, essa sensação pode ser dividida em dois grupos: crônica e aguda.

Os casos crônicos são consequências de muitos anos de trabalho com rotinas exaustivas e sobrecarregadas (como a de dentistas que cumprem mais de 40 horas semanais). Já a fadiga aguda dá sensação de sonolência, fraqueza e pode ocorrer desmaio. Aqui, é necessário ter atenção, pois os riscos de acidentes no trabalho se tornam maiores nesses episódios.

Prevenção

Para prevenir a fadiga, é necessário mudar diversos hábitos da vida, tanto pessoal quanto profissional.

Na vida pessoal, as dicas são dormir de 7 a 9 horas, seguir dieta saudável, praticar exercícios regularmente, evitar bebidas alcóolicas, cigarro, cafeína e, se for o caso, uso de drogas. Outra sugestão são as práticas de relaxamento, que podem vir com ioga ou meditação.

Já para a vida profissional, o indicado é manter a agenda equilibrada e organizada, respeitar o limite de 40 horas semanais e saber dar pausas entre os trabalhos mais pesados.

Problemas ergonômicos

Os problemas ergonômicos são muito comuns em profissionais da odontologia. Inicialmente, podem surgir na forma de dores menos agudas, mas, com o passar do tempo, geram desconfortos maiores e mais graves.

Entre os mais comuns estão a lesão por esforço repetitivo (LER) e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (Dort). Ambos estão relacionados aos movimentos contínuos em rotinas exaustivas e associados à má postura.

Os sintomas de LER/Dort são dores, queda da produtividade, síndrome dolorosa crônica e incapacidade temporária.

Outros problemas físicos consequentes da má ergonomia são a síndrome do túnel do carpo, a síndrome do desfiladeiro torácico, a síndrome do canal cubital, a tendinite do supra-espinhoso, entre outros. Importante ressaltar que esses quadros estão associados à LER/Dort.

Prevenção

Para prevenir doenças ocupacionais é importante começar pela organização do consultório odontológico. Aqui no blog da Surya, você pode conferir um artigo sobre o assunto e compreender como estruturar a sala para evitar riscos ergonômicos.

A prevenção com alongamentos e ergonomia é essencial para evitar doenças ocupacionais.

Além disso, o cirurgião-dentista deve manter a boa postura e realizar com frequência alongamentos durante o dia. A dica é fazer entre os atendimentos.

As pausas também são essenciais, portanto, após atendimentos mais intensos, tire cinco minutos para levantar, esticar o corpo e relaxar os membros.

Buscar exercícios físicos e ginástica laboral é uma ótima alternativa de prevenir e manter o corpo em movimento.

Luciana explica que as doenças ergonômicas podem ser combatidas por meio de uma boa rotina de exercícios físicos que permitam o fortalecimento dos músculos, o policiamento constante sobre a postura, o investimento em um mocho de qualidade e a escolha de uma cadeira adequada.

Outra dica é contar com um profissional de ergonomia para fazer uma vistoria e dar instruções sobre altura da cadeira, iluminação, computadores, etc.

Luciana conta que, ela mesma, desenvolveu hérnia de disco em decorrência da profissão, assim como muitos colegas que conhece tiveram outras doenças ocupacionais. “Indico o trabalho a quatro ou, até mesmo, a seis mãos e um treinamento eficaz para toda a equipe. Dessa forma, o dentista não ficará sobrecarregado e poderá evitar desgaste desnecessário.”

As normas regulamentadoras de ergonomia para odontologia e de biossegurança também devem ser conhecidas pelos profissionais, para que possam ser aplicadas rigorosamente no consultório.

Normas regulamentadoras de ergonomia e biossegurança

Para evitar e combater doenças ocupacionais na odontologia é crucial que todos os responsáveis pelo consultório façam valer as normas regulamentadoras. Os documentos têm o objetivo de proporcionar um ambiente de trabalho seguro e confortável para que os profissionais possam exercer suas atividades com mais tranquilidade.

Uma das normas mais importantes é a NR17, que traz diversos pontos sobre ergonomia e conforto no ambiente de trabalho, por isso convém que ela seja respeitada e aplicada.

Em relação a ambientes de trabalho onde é necessário ter atenção constante, como as salas de atendimento odontológico, o ideal é que as temperaturas fiquem entre 20ºC e 23ºC, que a velocidade do ar não seja superior a 0,75 m/s e que a umidade relativa não esteja abaixo de 40%.

Atenção: ao escolher o ar-condicionado para o consultório, lembre-se que ele deve ter dispositivo de retirada do calor interno para transferência externa, para que o ar seja renovado.

Em relação à iluminação, ela pode ser natural ou artificial, desde que seja adequada para o trabalho. Segundo a Norma Brasileira ISO/CIE 8995-1, a incidência de luz de um ponto deve ter a medida de 500 lux em iluminação geral, 1.000 lux no paciente e 5.000 lux para a cavidade cirúrgica.

Em relação aos riscos químicos e biológicos, é necessário que o consultório conte com um Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), que irá analisar os ambientes de riscos e os fatores relacionados.

Ele deve ser atualizado uma vez por ano e disponibilizado a todos os colaboradores da clínica, para que possam estar cientes dos riscos que cada função e ambiente pode apresentar.

Além disso, a NR 32 prevê que é importante haver treinamentos contra riscos para os funcionários, pois todos devem estar bem instruídos.

Para evitar riscos biológicos, também fica a obrigação de distribuir EPIs que condizem com a necessidade do local. Os materiais devem ficar disponibilizados de forma que possam ser trocados pelos colaboradores quando necessário.

Luciana também ressalta que, especialmente neste momento de pandemia, em que os riscos de contaminação de Covid-19 são maiores, é essencial que os gestores do consultório tenham esse cuidado com auxiliares, dentistas, pessoal da limpeza e de atendimento.

O conhecimento das normas ergonômicas aliado a um ambiente de trabalho confortável, a um estilo de vida que priorize a saúde ao trabalho e o conhecimento de biossegurança são essenciais para evitar as doenças ocupacionais na odontologia.

Além de conhecer os documentos citados durante este texto, você pode baixar gratuitamente o nosso e-book “Biossegurança em odontologia: saiba como manter o seu consultório protegido”. Basta clicar na imagem abaixo!

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