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Manejo comportamental na odontopediatria: como aplicar?

Manejo comportamental na odontopediatria: como aplicar?

Atuar com pacientes infantis nem sempre é tarefa fácil, afinal, os pequenos têm características psicológicas bem distintas dos adultos, o que por vezes podem tornar o atendimento mais difícil. Nessas situações, o cirurgião-dentista deve recorrer ao manejo comportamental para odontopediatria, ou seja, técnicas que buscam deixar o procedimento mais seguro.

Se você atua com crianças ou, até mesmo, com pacientes com deficiência, convém aprofundar os estudos nas técnicas de manejo comportamental para oferecer um procedimento mais tranquilo e que seja respeitoso para você, a pessoa que irá atender e pais ou responsáveis.

Quer saber mais sobre o assunto? Continue a leitura deste artigo e confira como aplicar técnicas de manejo comportamental na odontopediatria.

Comportamento e faixa etária

O paciente infantil, de acordo com a faixa etária, pode ter diferentes tipos de comportamentos, o que é totalmente normal e característico de cada fase do desenvolvimento.

Para compreender melhor essas características, vamos conferir os estágios de comportamento estudados pelo biólogo e cientista Jean Piaget, que trouxe contribuições importantes para a pedagogia.

1. Estágio sensório-motor

O primeiro estágio do desenvolvimento infantil defendido por Piaget é o sensório-motor, que equivale aos bebês de até dois anos. Essa é a fase que antecede à linguagem.

Nesse momento, os bebês começam a explorar o mundo de forma manual e visual e é nessa etapa em que se dá início ao desenvolvimento dos reflexos básicos.

Algumas características comportamentais são agarrar, chutar, arremessar, sugar e bater. Portanto, é comum que durante o atendimento o bebê tente pegar algumas coisas que chamem a atenção.

2. Pré-operacional

O estágio pré-operacional começa após os dois anos e vai até a faixa etária dos seis aos sete anos. É aquela famosa fase do “por quê?”, em que os pequenos, que começam a dominar a linguagem, questionam sobre o mundo que os rodeia.

Nessa etapa, as crianças começam a desenvolver também a capacidade de representar o mundo por meio de símbolos, como os desenhos.

O paciente infantil nesse estágio de desenvolvimento tende a ser egocêntrico, ou seja, ainda não tem capacidade de se colocar no lugar do outro, assim como possui dificuldades em aceitar regras e pontos de vista.

3. Operações concretas

Nesta fase, as crianças têm idade entre 7 e 12, e já são capazes de serem mais empáticas e sociáveis. Também dialogam com facilidade e compreendem regras estabelecidas.

Menina asiática conversando com dentista

Conhecer os estágios do desenvolvimento infantil é essencial para lidar com o paciente odontopediátrico.

Crianças no estágio de operações concretas também já possuem raciocínio lógico e dominam conceitos de tempo e números.

4. Operações formais

A partir dos 12 anos, os adolescentes passam a ter pensamento lógico e, portanto, conseguem manter um comportamento mais formal. Já são capazes de ter uma linha de raciocínio lógico e relacionar conceitos abstratos.

Compreender esses diferentes estágios do desenvolvimento infantil ajudará o cirurgião-dentista a planejar de forma mais estratégica o manejo comportamental, assim como conhecer as características psicológicas de cada idade.

Como aplicar o manejo comportamental na odontopediatria?

Agora que você conhece um pouco mais sobre as fases do desenvolvimento infantil, conceitos fundamentais para este assunto, chegou o momento de conferir como aplicar o manejo comportamental. São diversas técnicas que vão desde o momento de recepcionar o paciente, até o término do atendimento.

Recepção ao paciente

A primeira técnica de manejo comportamental começa com a recepção do pequeno paciente. O dentista deve se encaminhar até a ele sem máscara, luva e gorro, para que a criança identifique o rosto e sinta-se mais tranquila. Além disso, muitos pacientes infantis, especialmente bebês, podem sentir medo ao ver a pessoa com o rosto coberto e, portanto, não será um bom primeiro contato.

É importante ressaltar que, neste período de pandemia, esse tipo de contato não é possível. Portanto, uma boa forma de o fazer é substituir as máscaras tradicionais por aquelas mais coloridas e divertidas, pois isso irá gerar simpatia ao paciente.

Ao encontrá-lo pela primeira vez, pergunte nome, idade e torne o diálogo mais descontraído e amigável, sem falar muito do tratamento por enquanto. Sempre opte por um tom de voz carinhoso, pois isso fará a criança se sentir à vontade.

Ao conversar, sempre faça contato visual. Portanto, a dica é abaixar até a altura dos olhos da criança para que ela sinta mais confiança. Com o período de pandemia, isso ainda pode ser feito, mas o ideal é manter uma distância segura e usar o protetor facial com a máscara.

Encaminhe o pequeno à sala de atendimento e, se possível, mantenha contato físico, pousando uma mão no ombro.

Uso de imagens positivas

Uma técnica interessante a ser empregada ainda na recepção é o uso de imagens positivas. Gibis, livros, decoração, filmes e cartazes com cenas felizes referentes ao universo odontológico podem tranquilizar a criança em relação ao que a espera.

Desenho de menina negra em cadeira odontológica feliz

Antes do atendimento odontológico, as crianças devem ter contato com imagens positivas na recepção, pois isso ajudará a lidar com o medo.

Essa técnica pode ser aplicada ainda na recepção mas, se preferir, também pode ser usada dentro do consultório. Para isso, invista em um tablet ou um projetor, assim ficará mais fácil emitir as imagens para que os pequenos pacientes assistam.

Dentro do consultório

Uma vez dentro do consultório, é necessário dar início a algumas outras técnicas de manejo comportamental da odontopediatria. Mas antes disso, esteja atento ao comportamento do paciente, pois isso irá direcionar a sua estratégia. Crianças mais agressivas podem precisar de estabilização protetora, por exemplo.

Dizer-mostrar-fazer

A técnica dizer-mostrar-fazer ou, no inglês, tell-show-do (TSD), é uma ótima ideia para pacientes ansiosos ou com odontofobia. É comum que as crianças tenham medo perante uma situação totalmente desconhecida e, portanto, empregar esse método pode “quebrar” o gelo.

Comece por mostrar os instrumentos que estão dentro do consultório, troque os nomes técnicos por algo mais amigável e pertencente ao vocabulário infantil e, por último, explique para que serve cada um. Aqui, tenha cuidado com as palavras para não fazer uma escolha errada e que pode gerar medo.

Ao saber para que serve cada instrumento e no que consiste o procedimento, os pequenos não irão fantasiar cenários negativos e, portanto, ficarão menos relutantes para receber o tratamento.

Perguntar-falar-perguntar

Este segundo método valoriza muito a humanização e o diálogo com o paciente, já que o objetivo é saber como ele se sente em relação ao procedimento, para que, assim, você possa tirar todas as dúvidas e acalmá-lo.

Portanto, comece por perguntar se está tudo bem e se tem alguma dúvida. Em seguida, permita que a criança fale, sem interrompê-la. E, depois, explique todos os pontos, sempre em tom amigável. Ao terminar, verifique se resta alguma questão, caso sim, volte à explicação.

Caso a criança continue a se sentir com medo ou ansiosa, o ideal é tentar outras estratégias para o procedimento.

Mão sobre a boca

Mão sobre a boca ou, no inglês, hands over mouth exercise (HOME), é uma das técnicas mais controversas. De um lado, há especialistas que a defendem, pois acreditam que ela pode ser uma ótima ferramenta para mobilizar pacientes não cooperativos e, por outro, há quem diga que pode ser um tanto quanto traumatizante.

Geralmente, essa técnica é empregada para conter choro, birra e ataques de raiva por parte do paciente infantil que não quer ser colaborativo.

Técnicas mais rigorosas devem ser utilizadas em último caso.

Para aplicá-la, o cirurgião-dentista deve colocar a mão sobre a boca do paciente durante episódios de crise para que os sons sejam abafados e o diálogo possa ser mantido. Quando isso não é o suficiente, é possível recorrer à variação dessa técnica e, nesse caso, serão tapadas as vias aéreas com o polegar e o dedo indicador por 15 segundos.

Se durante esse manejo o paciente colaborar, faça elogios e incentivos positivos e, em seguida, continue o atendimento.

Para essa técnica, existem restrições que devem ser respeitadas para garantir o bem-estar do paciente. Primeiramente, ela deve ser feita apenas em crianças acima dos três anos e que não tenham qualquer tipo de deficiência mental, auditiva e que já tenham a maturidade para compreender os comandos do dentista.

Nunca aplique este método sem autorização dos pais! Se você desejar recorrer à técnica, explique como ela será feita para não haver qualquer desentendimento ou situação de desrespeito.

Reforço positivo

O reforço positivo é sempre bem-vindo e deve ser utilizado em todas as situações, ou seja, mesmo com pacientes colaborativos. O nome é bem explicativo e, em resumo, trata-se de uma técnica que incentiva, elogia, encoraja e também utiliza da comunicação não verbal de forma positiva.

Esse tipo de postura é essencial para receber crianças que estão ansiosas ou com medo, já que isso fará com que elas se sintam à vontade e, aos poucos, comecem a cooperar mais. Portanto, diante dessa situação, evite falas bruscas como “pare!”.

Faça a criança se sentir corajosa e forte, sempre relembrando isso a ela. Por exemplo, ao abrir a boca de forma correta, você pode elogiar os dentes e dizer o quanto ela está ajudando.

Controle de voz

Ser harmonioso e carinhoso é fundamental, entretanto, saber ser firme também é necessário. Isso não significa ser grosseiro com os pequenos, e sim saber conduzi-los durante o tratamento sem perder as rédeas da situação.

Há momentos em que, mesmo com todas as práticas de manejo, as crianças podem continuar a apresentar mau comportamento. Por isso, é necessário saber se impor e dar comandos.

Para essa técnica, é necessário saber fazer uso do tom de voz e da entonação, já que, dependendo da fase de desenvolvimento, os pequenos podem não saber responder ao conceito das palavras.

O objetivo do uso do controle de voz é chamar a atenção do paciente e fazer com que ele coopere, prevenir qualquer tipo de comportamento negativo e deixar claro que, ali, você é o dentista e ela, a criança, que deve manter respeito pelo trabalho e pelo adulto.

Menino com a boca aberta enquanto é examinado por dentista

O controle de voz deve ser feito de forma firme e respeitosa, com o objetivo de atrair a atenção do paciente.

É importante ressaltar, novamente, que isso não significa ser controlador, rude e nem reprimir os sentimentos das crianças. O controle de voz deve estar bem alinhado ao reforço positivo, para gerar respeito e colaboração. Caso contrário, os episódios de raiva e mau comportamento podem piorar.

Estabilização protetora na odontopediatria

Outra técnica que pode ser utilizada dentro do consultório é a estabilização protetora, ou seja, método que mobiliza o paciente para evitar qualquer movimento brusco que possa, até mesmo, ser perigoso para a criança ou atrapalhar todo o procedimento.

A estabilização protetora pode ser feita de diversas maneiras: em alguns casos, os próprios pais seguram braços e pernas dos filhos, e em outros, o cirurgião-dentista recorre a fitas, envoltórios de tecidos ou cintos.

Esse método deve sempre ser a última opção, já que é um pouco mais rigorosa e consiste, justamente, em mobilizar a criança seja pelo corpo inteiro ou apenas alguns membros. Portanto, se for necessário recorrer a ele, lembre-se de pedir autorização por escrito dos pais e explicar corretamente como funciona, para evitar acusações de violência.

É importante destacar aos responsáveis que essa técnica não é uma agressão ou punição, e sim uma forma de garantir a segurança do paciente, que pode se machucar enquanto faz movimentos bruscos. Inclusive, é indicado que os pais participem e ajudem o cirurgião-dentista com esse método, seja segurando a criança ou incentivando-a.

A estabilização protetora geralmente é utilizada em momentos de urgência odontológica e como técnica de manejo comportamental não farmacológica na odontopediatria, ou seja, sem o uso de anestesia geral.

Se estiver diante de um paciente cooperativo, não recorra a esse método. Antes de pensar em aplicá-lo, sempre faça uma avaliação criteriosa sobre o comportamento da criança e a idade dela, para verificar se é realmente necessária.

Geralmente, ela é indicada para crianças menores de três anos, pacientes com algum tipo de deficiência mental ou física que impossibilita o manejo.

Confira o vídeo da dra. Rise Rank, que explica quando utilizar a prática e deixa o exemplo do caso de um paciente infantil que se encontra extremamente nervoso.

Como você verá no vídeo, mesmo com o uso da estabilização protetora, foi realizado o reforço positivo, essencial para construir uma relação de confiança e, até mesmo, mostrar ao paciente que não é preciso ter medo e que o resultado do procedimento será bom.

Após a consulta

Ao terminar o procedimento, acompanhe o paciente até a recepção juntamente com os pais e dê a ele um presentinho como forma de encorajamento pelo bom comportamento.

Essa lembrancinha pode ser uma bexiga, um lápis com bichinhos, alguns bonequinhos e medalhas com frases positivas, por exemplo.

Lembre-se que brindes nunca devem ser utilizados como chantagem, e sim fazer parte da estratégia de reforço positivo.

Estudar a fundo cada técnica de manejo comportamental na odontopediatria é importante, para que elas sejam feitas de forma correta, especialmente as mais rigorosas, que não devem ser confundidas com agressão e precisam ficar bem esclarecidas para os pais.

Os brindes são ótimos para encorajar os pequenos e deixá-los à vontade para a próxima consulta.

O manejo comportamental na odontopediatria, além de garantir uma boa relação paciente-dentista, é uma forma de manter as crianças seguras dentro do consultório.

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