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17 minutos de leitura

Fissura labiopalatina: atuação dentro da odontologia

22 de março de 2021
Modelos de dentes em um consultório odontológico
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Uma em cada 650 crianças nascidas possui fissura labiopalatina, um dos defeitos congênitos mais comuns na face humana, revela o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP). Essa malformação acontece até a 12ª semana de gestação e é caracterizada pela ausência da fusão entre lábio e palato.

O tratamento é feito por equipe multidisciplinar, que conta com o cirurgião-dentista, profissional de presença essencial no acompanhamento ortodôntico e de manifestações comuns que surgem com o passar do tempo no paciente fissurado.

Neste artigo, você confere qual o papel da odontologia no tratamento desses pacientes e o que cirurgiões-dentistas devem saber. Boa leitura!

CONTEÚDO DO POST

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  • Como ocorre a fissura labiopalatina?
  • Etiopatogenia da fissura labiopalatina
  • Classificação das fissuras
  • Fissura labiopalatina: tratamento multidisciplinar
  • Atuação do cirurgião-dentista
  • Como ocorre a fissura labiopalatina?
  • Etiopatogenia da fissura labiopalatina
  • Classificação das fissuras
  • Complicações sistêmicas: impactos na saúde geral da criança
  • Fissura labiopalatina: tratamento multidisciplinar
  • Procedimentos complementares: quando as cirurgias adicionais são indicadas?
  • A atuação odontológica diante da Lei nº 15.133/2025

Como ocorre a fissura labiopalatina?

A fissura labiopalatina, como já dissemos, é um dos defeitos congênitos mais comuns na região da face. A população amarela é a mais atingida: a cada 600 nascidos, um possui a anomalia. Já a menor incidência acontece entre as pessoas negras, com proporção de 1:1.100.

Na maioria dos casos, não ocorre comprometimento cognitivo, entretanto, a deformidade pode também acompanhar cerca de 100 síndromes, como síndrome de Down.

De acordo com o artigo “O papel do cirurgião-dentista na abordagem do paciente com fissura labiopalatina”, durante o crescimento do feto algumas partes do rosto desenvolvem-se separadamente e, em seguida, fundem-se. Entretanto, podem ocorrer distúrbios nesse processo, gerando má formação e fendas.

Dessa forma, a fusão entre maxilar e saliências nasais mediais ou processos palatinos podem resultar em diferentes tipos de fissuras, que ocorrem de forma unilateral ou bilateral.

A fissura de lábios e palatos pode acontecer de forma isolada, simultânea e/ou combinada com outras malformações, o que gera graus de severidade ao paciente fissurado.

Etiopatogenia da fissura labiopalatina

Quando pensamos na etiopatogenia da anomalia, é necessário considerar três fatores: genéticos, ambientais e múltiplos.

Fatores genéticos

Os fatores genéticos devem ser considerados no histórico do paciente fissurado, já que eles podem contribuir para o surgimento da anomalia. Para cada situação existe um aumento da porcentagem de influência.

  • Pais que não possuem fissura: 0,1%
  • Apenas um dos pais: 2%
  • Pais sem fissura, porém com um dos filhos fissurados: 4,5%
  • Um dos pais com fissura + um filho fissurado: 15%

É importante ressaltar que, como mostram as porcentagens, não existe obrigatoriedade da repetição do surgimento da fissura labiopalatina. Ou seja, não é porque um dos filhos tem, que o outro vai ter também.

Fatores ambientais

Ao levantar o histórico do paciente, é essencial considerar os fatores ambientais, que podem ser doenças, distúrbios nutricionais e a exposição a fármacos, drogas e outros.

Entre as doenças infecciosas que contribuem para o lábio leporino estão sífilis, rubéola, toxoplasmose e citomegalovírus. Já em relação aos distúrbios, eles podem ser endócrinos (diabetes e hipotireodismo) e nutricionais (hipervitaminose A, baixa ingestão de macronutrientes, vitaminas e minerais).

Mulher branca acariciando a própria barriga de grávida
Os cuidados com a gestação devem ser seguidos cuidadosamente para evitar que fatores externos contribuam para malformações.

A estrutura genética da mãe, por exemplo, tem grande peso, pois é ela que determina como o organismo irá ingerir e processar o ácido fólico.

O artigo “Genética materna é causa do lábio leporino”, publicado pelo Instituto de Biociência da USP, explica que o ácido fólico é essencial para a geração dos genes e que atua diretamente nos processos de divisão celular e na produção de DNA.

Nos três primeiros meses da gestação, o nutriente é primordial. Entretanto, para alcançar o feto, é preciso que a estrutura genética materna tenha uma boa ingestão da vitamina.

Outros fatores, como uso de fármacos (anticonvulsivante e corticoide), consumo de álcool e cigarro, exposição a químicos industriais e agrícolas, idade materna e paterna avançada, também contribuem.

Um episódio que pode ocorrer com a influência de álcool, cigarro e drogas é quando a mulher ainda não sabe que está gestante. Por não ter conhecimento, pode ser que ela persista no uso dessas substâncias e, consequentemente, isso poderá contribuir para malformações.

Esse tipo de comportamento, até a terceira semana, pode resultar em aborto. Caso o uso das substâncias seja feito entre a terceira e oitava semana, é bem possível que aconteçam malformações, já que esse período é extremamente sensível a perturbações.

Classificação das fissuras

As fissuras labiopalatais podem ser classificadas em três grupos com a literatura de Spina (1972): fissuras pré-forame incisivo, fissura transforame incisivo e fissuras pós-forame incisivo. Dentro de cada grupo, estão estabelecidos outros tipos, como explicaremos adiante.

Fissuras pré-forame

Dentro deste primeiro grupo, temos as fissuras labiais unilateral (em um lado), bilateral (em dois lados) e mediana (no meio). Elas se limitam ao palato primário e, dessa forma, acometem o lábio e/ou o rebordo alveolar sem ultrapassar o limite do forame incisivo. A aparência, no vermelhão do lábio superior, é um corte discreto.

Fissuras transforame incisivo

No segundo grupo, ficam as fissuras de maior gravidade, ou seja, abrangem total ou simultaneamente o palato primário e secundário. Podem ser unilaterais ou bilaterais. Atingem lábio, arcada alveolar e palato.

Fissuras pós-forame incisivo

Por último, temos as fissuras de palato e, geralmente, elas ocorrem de forma mediana, situadas na úvula ou em outras partes do palato mole e duro. Nesse caso, os lábios e dentes ficam intactos.

Fissura labiopalatina: tratamento multidisciplinar

Segundo o artigo “O papel do cirurgião-dentista na abordagem do paciente com fissura labiopalatina”, é importante que o fissurado tenha o tratamento dividido em três partes: pré-cirúrgico, cirúrgico e pós-cirúrgico.

Da 1ª semana ao 3º mês de vida, a família irá receber informações e suporte psicológico e de assistência social. A equipe multidisciplinar dos profissionais de saúde também começa a atuar: pediatras analisam o equilíbrio sistêmico; fonoaudiólogos trabalham para melhorar a sucção do bebê; e a odontopediatria realiza procedimentos preventivos e com foco na educação alimentar.

Paralelo ao cirurgião-dentista, o protesista pode atuar com a confecção de uma placa acrílica para vedar a fissura e facilitar a alimentação do bebê. O terapeuta ocupacional e nutricionista também auxiliam por meio de técnicas para pais alimentarem o paciente.

Boca de bebê branco com fissura labiopalatina
O tratamento da fissura labiopalatina deve ser realizado desde os primeiros meses de vida para minimizar consequências negativas.

Na segunda etapa, que ocorre do 6º ao 12º mês, é avaliada as condições de saúde do bebê. Caso esteja tudo bem, ele pode passar pela queiloplastia com o cirurgião-plástico. A partir do primeiro ano até o 15º mês, é realizada a palatoplastia.

A partir desse momento até ao quinto ano de vida da criança, ela irá receber acompanhamento da equipe multidisciplinar composta por pediatra, psicólogo e fonoaudiólogo, além das áreas de nutrição, periodontia, odontopediatria, ortodontia, prótese, enfermagem, otorrinolaringologia e refinamento da cirurgia.

Entre os sete ou oito anos de vida, o paciente passa pelo procedimento preventivo na dentadura mista. Até os nove anos, ocorre o crescimento craniofacial e, portanto, chega o momento de fazer o enxerto ósseo secundário.

Dos nove aos 16 anos, é realizado o tratamento corretivo ortodôntico e, entre os 13 e 18 anos, se necessário, é feita a cirurgia ortognática.

Atuação do cirurgião-dentista

Como podemos ver, por ser uma anomalia que ocorre na região da face, local de estudo da odontologia, o papel do cirurgião-dentista é imprescindível. Ele deve acompanhar o paciente desde os primeiros meses de vida até a fase jovem adulta.

Pacientes fissurados, por sofrerem com as diversas alterações que são consequentes à fissura labiopalatina, necessitam de tratamento odontológico feito por diferentes especialistas, com o intuito de prevenir e corrigir manifestações indevidas.

Segundo o artigo “A ortodontia na atenção multidisciplinar na saúde do paciente fissurado”, as fissuras atingem o desenvolvimento dos dentes decíduos e permanentes e pode ocorrer a ausência congênita de dentes e a presença de dentes supranumerários.

Além disso, podem ocorrer microdentes, erupção dentária ectópica, dentes natais, neonatais e intranasais, atraso na erupção e na formação dentária. É comum também encontrar, entre as anomalias, a anodontia.

Como consequência dessas ocorrências, é frequente surgirem más oclusões, mordidas cruzadas anterior e posterior na dentadura decídua. Doenças de cáries e periodontais também são consequências.

Abordagem pela odontopediatria

A odontopediatria deve atuar com ênfase na manutenção, estabelecimento e preservação da saúde bucal do paciente, por meio da atenção precoce educativa-preventiva.

Essa etapa é fundamental e decisiva para todo o tratamento, pois previne-se uma série de ocorrências desde cedo, como problemas de gengivite.

Também cabe ao odontopediatra a preservação do osso na área da fissura e a redução de riscos de infecções e problemas consequentes do pós-operatório.

Abordagem na ortodontia

Na ortodontia, o foco é a ortopedia pré-operatória, com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento e crescimento maxilomandibular. De acordo com o artigo “A ortodontia na atenção multidisciplinar na saúde do paciente fissurado”, é indicada a colocação de uma placa palatina para ajudar na alimentação e sucção, assim como corrigir aproximações dos rebordos maxilares.

Em casos de envolver o rebordo alveolar, é necessário atenção especial ao enxerto ósseo alveolar secundário.

Boca de menina branca sorrido com aparelho odontológico
O tratamento ortodôntico em pacientes fissurados atua de forma pré-operatória.

A abordagem odontológica é essencial para o tratamento da fissura labiopalatal e, portanto, esse acompanhamento deve iniciar o quanto antes. Os cirurgiões-dentistas, por terem papel imprescindível, devem manter-se atualizados sobre o assunto e estudar as novidades e tecnologias criadas para proporcionar mais qualidade de vida.

Para receber mais informações sobre pacientes que requerem atenção específica, como oncológicos e diabéticos, assine a nossa newsletter. Você receberá em sua caixa de entrada dicas úteis para o dia a dia do seu consultório.

Fissura labiopalatina: atuação dentro da odontologia

Uma em cada 650 crianças nascidas possui fissura labiopalatina, um dos defeitos congênitos mais comuns na face humana, revela o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP). Essa malformação acontece até a 12ª semana de gestação e é caracterizada pela ausência da fusão entre lábio e palato.

O tratamento é feito por equipe multidisciplinar, que conta com o cirurgião-dentista, profissional de presença essencial no acompanhamento ortodôntico e de manifestações comuns que surgem com o passar do tempo no paciente fissurado.

Esse acolhimento clínico inicial, somado a um diagnóstico preciso (que muitas vezes começa ainda na vida intrauterina por meio da ultrassonografia morfológica), é o que garante que a família sinta segurança no processo. O consultório odontológico atua como um verdadeiro porto seguro de informação desde os primeiros dias de vida da criança.

Neste artigo, você confere qual o papel da odontologia no tratamento desses pacientes e o que cirurgiões-dentistas devem saber. Boa leitura!

Como ocorre a fissura labiopalatina?

De acordo com o artigo “O papel do cirurgião-dentista na abordagem do paciente com fissura labiopalatina”, durante o crescimento do feto, algumas partes do rosto desenvolvem-se separadamente e, em seguida, fundem-se. Entretanto, podem ocorrer distúrbios nesse processo, gerando má-formação e fendas.

Dessa forma, a fusão entre maxilar e saliências nasais mediais ou processos palatinos pode resultar em diferentes tipos de fissuras, que ocorrem de forma unilateral ou bilateral. A fissura de lábios e palatos pode acontecer de forma isolada, simultânea e/ou combinada com outras malformações, o que gera graus de severidade ao paciente fissurado.

A população amarela é a mais atingida: a cada 600 nascidos, um possui a anomalia. Já a menor incidência acontece entre as pessoas negras, com proporção de 1:1.100. Na maioria dos casos, não ocorre comprometimento cognitivo; entretanto, a deformidade pode também acompanhar cerca de 100 síndromes, como síndrome de Down.

Etiopatogenia da fissura labiopalatina

Quando pensamos na etiopatogenia da anomalia, é necessário considerar fatores: genéticos, ambientais e múltiplos.

Fatores genéticos

Os fatores genéticos devem ser considerados no histórico do paciente fissurado, já que eles podem contribuir para o surgimento da anomalia. Para cada situação, existe um aumento da porcentagem de influência:

  • Pais que não possuem fissura: 0,1%;
  • Apenas um dos pais: 2%;
  • Pais sem fissura, porém com um dos filhos fissurados: 4,5%;
  • Um dos pais com fissura + um filho fissurado: 15%.

É importante ressaltar que, como mostram as porcentagens, não existe obrigatoriedade da repetição do surgimento da fissura labiopalatina. Ou seja, não é porque um dos filhos tem que o outro vai ter também.

Fatores ambientais

Ao levantar o histórico do paciente, é essencial considerar os fatores ambientais, que podem ser doenças, distúrbios nutricionais e a exposição a fármacos, drogas e outros.

Algumas das doenças infecciosas que contribuem para o lábio leporino são sífilis, rubéola, toxoplasmose e citomegalovírus. Já em relação aos distúrbios, eles podem ser endócrinos (diabetes e hipotireoidismo) e nutricionais (hipervitaminose A, baixa ingestão de macronutrientes, vitaminas e minerais).

Os cuidados com a gestação devem ser seguidos cuidadosamente para evitar que fatores externos contribuam para malformações. A estrutura genética da mãe, por exemplo, tem grande peso, pois é ela que determina como o organismo irá ingerir e processar o ácido fólico.

A pesquisa “Deficiência de ácido fólico e suas implicações na saúde da gestante do recém-nascido“, disponível entre os trabalhos publicados pela Universidade Federal de Ouro Preto, explica que o ácido fólico é essencial para a geração dos genes e que atua diretamente nos processos de divisão celular e na produção de DNA. Nos três primeiros meses da gestação, o nutriente é primordial.

Outros fatores, como uso de fármacos (anticonvulsivante e corticoide), consumo de álcool e cigarro, exposição a químicos industriais e agrícolas, idade materna e paterna avançada, também contribuem. Um episódio que pode ocorrer com a influência de álcool, cigarro e drogas é quando a mulher ainda não sabe que está gestante. Por não ter conhecimento, pode ser que ela persista no uso dessas substâncias e, consequentemente, isso poderá contribuir para malformações.

Esse tipo de comportamento, até a terceira semana, pode resultar em aborto. Caso o uso das substâncias seja feito entre a terceira e a oitava semana, é bem possível que aconteçam malformações, já que esse período é extremamente sensível a perturbações.

Nesse cenário, vale destacar que o pré-natal odontológico tem ganhado cada vez mais relevância. O cirurgião-dentista pode atuar ativamente na orientação das gestantes sobre a importância nutricional, ajudando a desmistificar medos e reforçando as indicações obstétricas sobre suplementação segura para a prevenção de anomalias craniofaciais.

Classificação das fissuras

A padronização clínica ajuda os profissionais a se comunicarem melhor e a desenharem protocolos previsíveis. Conhecer a fundo os tipos de fissura labiopalatina permite que a equipe multidisciplinar saiba exatamente quais desafios ortopédicos e cirúrgicos enfrentarão em cada etapa da vida do paciente.

As fissuras labiopalatais podem ser classificadas em três grupos, de acordo com a literatura de Spina (1972): fissuras pré-forame incisivo, fissura transforame incisivo e fissuras pós-forame incisivo. Dentro de cada grupo, estão estabelecidos outros tipos, como explicado adiante.

Fissuras pré-forame

Dentro deste primeiro grupo, temos as fissuras labiais unilateral (em um lado), fissura labiopalatina bilateral (em dois lados) e mediana (no meio). Elas se limitam ao palato primário e, dessa forma, acometem o lábio e/ou o rebordo alveolar sem ultrapassar o limite do forame incisivo. A aparência, no vermelhão do lábio superior, é um corte discreto.

Fissuras transforame incisivo

No segundo grupo, ficam as fissuras de maior gravidade, ou seja, abrangem total ou simultaneamente o palato primário e secundário. Podem ser unilaterais ou bilaterais, atingindo lábio, arcada alveolar e palato.

Quando o cirurgião-dentista se depara com um diagnóstico de fissura labiopalatina bilateral neste grupo específico, a atenção ortopédica nos primeiros dias de vida se torna ainda mais urgente. Por atingir os dois lados, a pré-maxila costuma apresentar grande projeção anterior, exigindo muitas vezes o uso de placas obturadoras ou modeladoras sob medida para o reposicionamento ósseo gradual antes das cirurgias.

Fissuras pós-forame incisivo

Por último, temos as fissuras de palato. Geralmente, elas ocorrem de forma mediana, situadas na úvula ou em outras partes do palato mole e duro. Nesse caso, os lábios e dentes ficam intactos.

Complicações sistêmicas: impactos na saúde geral da criança

O comprometimento causado pela fenda estende-se significativamente para além da cavidade oral, afetando funções vitais e o desenvolvimento global da criança. De acordo com o artigo “Fissuras labiopalatais e a importância do cuidado interprofissional: uma revisão de literatura“, entre as complicações clínicas severas que demandam monitoramento rigoroso e suporte interprofissional nos primeiros meses de vida do paciente, duas chamam atenção, exigindo cuidados e orientação.

Déficit no ganho de peso

Sobretudo nos casos de fendas pós-forame incisivo, a comunicação direta entre as cavidades da boca e do nariz impede que o bebê realize o selamento labial e palatino necessário para sugar de forma eficiente. Esse esforço contínuo gera fadiga precoce e um descompasso agudo entre a respiração, a sucção e a deglutição.

Como o lactente se cansa rápido e ingere um volume menor de leite, somado aos episódios frequentes de engasgos e refluxo nasal do alimento, o resultado clínico é a dificuldade crônica de ganhar peso de maneira saudável.

Predisposição a otites médias recorrentes

A integridade anatômica do palato é fundamental para o funcionamento mecânico da tuba auditiva. Na presença da fissura, o músculo tensor do véu palatino apresenta alterações em sua inserção e trajetória, falhando em abrir e fechar a tuba durante o ato de engolir. Essa falta de ventilação adequada na orelha média propicia o acúmulo de secreções vindas da nasofaringe e até de resíduos alimentares que escapam pela fenda, tornando a criança altamente suscetível a infecções de ouvido.

Fissura labiopalatina: tratamento multidisciplinar

Muito antes do bebê chegar à sala de cirurgia, a condição labiopalatina impõe uma dificuldade clínica e emocional imediata: a amamentação. A ausência de pressão intraoral negativa muitas vezes impede a criança de sugar o leite materno de forma eficaz. A odontologia intervém de imediato, confeccionando placas palatinas que vedam a comunicação oronasal, o que não só viabiliza a nutrição com bicos especiais, como previne engasgos e problemas no ouvido médio.

Segundo o artigo “O papel do cirurgião-dentista na abordagem do paciente com fissura labiopalatina”, é importante que o fissurado tenha o tratamento dividido em três partes: pré-cirúrgico, cirúrgico e pós-cirúrgico.

Confira também: Amamentação e odontologia: qual a relação entre ambas?

Primeira etapa

Da 1ª semana ao 3º mês de vida, a família irá receber informações e suporte psicológico e de assistência social. A equipe multidisciplinar dos profissionais de saúde também começa a atuar: pediatras analisam o equilíbrio sistêmico; fonoaudiólogos trabalham para melhorar a sucção do bebê; e a odontopediatria realiza procedimentos preventivos e com foco na educação alimentar.

Paralelo ao cirurgião-dentista, o protesista pode atuar com a confecção de uma placa acrílica para vedar a fissura e facilitar a alimentação do bebê. O terapeuta ocupacional e nutricionista também auxiliam por meio de técnicas para pais alimentarem o paciente. O tratamento da fissura labiopalatina deve ser realizado desde os primeiros meses de vida para minimizar consequências negativas.

Segunda etapa

Na segunda etapa, que ocorre do 6º ao 12º mês, são avaliadas as condições de saúde do bebê. Caso esteja tudo bem, ele pode passar pela queiloplastia com o cirurgião-plástico. A partir do primeiro ano até o 15º mês, é realizada a palatoplastia.

Deste momento até o quinto ano de vida da criança, ela irá receber acompanhamento da equipe multidisciplinar composta por pediatra, psicólogo e fonoaudiólogo, além das áreas de nutrição, periodontia, odontopediatria, ortodontia, prótese, enfermagem, otorrinolaringologia e refinamento da cirurgia.

Terceira etapa

Entre os sete ou oito anos de vida, o paciente passa pelo procedimento preventivo na dentadura mista. Até os nove anos, ocorre o crescimento craniofacial e, portanto, chega o momento de fazer o enxerto ósseo secundário, indicado para reparar a fenda remanescente no rebordo alveolar.

O procedimento utiliza um fragmento ósseo autógeno para estabilizar a arcada dentária, fechar fístulas oronasais e, crucialmente, fornecer suporte ósseo adequado para a erupção do dente canino permanente adjacente à fissura.

Quarta etapa

Dos nove aos 16 anos, é realizado o tratamento corretivo ortodôntico e, entre os 13 e 18 anos, se necessário, é feita a cirurgia ortognática.

É frequente que pacientes nascidos com fendas palatinas apresentem um padrão esquelético de Classe III, caracterizado por uma maxila hipoplásica em relação à mandíbula. Intervenções como a osteotomia tipo Le Fort I são executadas para avançar a maxila, corrigindo a oclusão, o perfil facial e a estética esquelética de forma definitiva.

Atuação do cirurgião-dentista

Como podemos ver, por ser uma anomalia que ocorre na região da face, local de estudo da odontologia, o papel do cirurgião-dentista é imprescindível. Ele deve acompanhar o paciente desde os primeiros meses de vida até a fase jovem adulta.

Pacientes fissurados, por sofrerem com as diversas alterações que são consequentes à fissura labiopalatina, necessitam de tratamento odontológico feito por diferentes especialistas, com o intuito de prevenir e corrigir manifestações indevidas. Segundo o artigo “A ortodontia na atenção multidisciplinar na saúde do paciente fissurado”, as fissuras atingem o desenvolvimento dos dentes decíduos e permanentes e pode ocorrer a ausência congênita de dentes e a presença de dentes supranumerários.

Além disso, podem ocorrer microdentes, erupção dentária ectópica, dentes natais, neonatais e intranasais, atraso na erupção e na formação dentária. É comum também encontrar, entre as anomalias, a anodontia. Como consequência dessas ocorrências, é frequente surgirem más oclusões, mordidas cruzadas anterior e posterior na dentadura decídua. Cáries e doenças periodontais também são consequências.

Abordagem pela odontopediatria

A odontopediatria deve atuar com ênfase na manutenção, estabelecimento e preservação da saúde bucal do paciente, por meio da atenção precoce educativa-preventiva.

Essa etapa é fundamental e decisiva para todo o tratamento, pois previne-se uma série de ocorrências desde cedo, como problemas de gengivite. Também cabe ao odontopediatra a preservação do osso na área da fissura, a redução de riscos de infecções e problemas consequentes do pós-operatório.

Abordagem na ortodontia

Na ortodontia, o foco é a ortopedia pré-operatória, com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento e crescimento maxilomandibular. De acordo com o artigo “A ortodontia na atenção multidisciplinar na saúde do paciente fissurado”, é indicada a colocação de uma placa palatina para ajudar na alimentação e sucção, assim como corrigir aproximações dos rebordos maxilares. Em casos de envolver o rebordo alveolar, é necessária atenção especial ao enxerto ósseo alveolar secundário.

Manejo do biofilme e preparo para o enxerto esquelético

O controle do biofilme bacteriano em pacientes fissurados exige um protocolo preventivo de alta frequência no consultório. Devido às bridas cicatriciais das cirurgias plásticas primárias e à presença comum de dentes ectópicos ou supranumerários adjacentes à linha da fenda, formam-se nichos severos de retenção que aceleram o desenvolvimento de cáries e gengivite.

O cirurgião-dentista deve instituir o uso de escovas com cabeças compactas, cerdas extramacias e a aplicação tópica localizada de digliconato de clorexidina a 0,12% com o auxílio de microbrushes diretamente nas margens da fenda.

Orientações de higiene específicas para fissura labiopalatina

Para complementar o controle básico do biofilme e focar nas particularidades que o paciente fissurado enfrenta no dia a dia, o cirurgião-dentista deve instruir a família com estratégias direcionadas à rotina cirúrgica e protética:

  • Higienização rigorosa da placa obturadora: o dispositivo acrílico deve ser removido após cada refeição para ser lavado fora da boca. A orientação crucial é escovar a placa com sabão neutro ou soluções enzimáticas, e nunca com creme dental. Os abrasivos do dentifrício riscam o acrílico, criando microfrestas que servem de nicho para a proliferação de Candida albicans, o que pode gerar estomatite debaixo da placa;
  • Protocolo de higiene pós-cirúrgica imediata: nas primeiras semanas após a queiloplastia ou palatoplastia, a escova de dentes não deve chegar perto da linha de sutura. A limpeza do local operado deve ser feita passivamente com hastes de algodão flexíveis embebidas em digliconato de clorexidina a 0,12% (sem álcool), removendo crostas de sangue ou restos de dieta líquida com extrema leveza para não gerar deiscência dos pontos;
  • Limpeza por arraste com seringa: antes do fechamento cirúrgico do palato, pedaços de alimentos pastosos podem ficar retidos na fenda profunda. Ensinar os pais a utilizarem uma seringa de bico liso preenchida com soro fisiológico morno para injetar o líquido suavemente na região permite que os resíduos saiam por arraste, evitando o uso de instrumentos pontiagudos que possam ferir a mucosa;
  • Proteção e lubrificação do tecido cicatricial: o tecido que passa por reparação cirúrgica perde elasticidade e sofre com o ressecamento crônico devido à menor presença de glândulas salivares menores na linha da cicatriz. Orientar a aplicação de uma fina camada de óleo mineral ou vaselina sólida purificada nos lábios antes da escovação previne que o ato de abrir a boca cause estiramentos dolorosos ou sangramentos na pele.

Procedimentos complementares: quando as cirurgias adicionais são indicadas?

Embora o protocolo primário estabeleça as bases para a reabilitação, a evolução do crescimento craniofacial e as particularidades de cicatrização de cada indivíduo podem exigir intervenções cirúrgicas refinadas ao longo dos anos. O cirurgião-dentista desempenha um papel crucial no diagnóstico dessas necessidades e no encaminhamento oportuno para o cirurgião plástico ou bucomaxilofacial. Confira as principais especialidades e indicações para os procedimentos adicionais.

Refinamentos de lábio e palato (faringoplastia)

Quando a primeira intervenção sofre com retrações cicatriciais severas ou quando o paciente manifesta insuficiência velofaríngea, cirurgias secundárias de palato ou retalhos faríngeos são indicadas. O objetivo é reconstruir o esfíncter velofaríngeo para devolver a nitidez fonética e melhorar a estética do vermelhão do lábio.

Rinoplastia secundária

A assimetria da asa nasal e o desvio de septo são sequelas estéticas e funcionais comuns. A remodelagem do nariz busca corrigir a cartilagem alar colapsada e restabelecer a permeabilidade das vias aéreas. Embora pequenos retoques possam ocorrer na infância, a rinoplastia definitiva costuma ser postergada até o final do crescimento esquelético da face, na pós-puberdade.

A atuação odontológica diante da Lei nº 15.133/2025

A reabilitação integral ganhou um reforço jurídico histórico com a Lei nº 15.133, de 6 de maio de 2025, que consolida a obrigatoriedade da cirurgia reconstrutiva pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para o cirurgião-dentista, o texto legal valida a importância da profissão no ecossistema de saúde: a legislação determina que o suporte pós-cirúrgico inclui obrigatoriamente a ortodontia, ao lado da fonoaudiologia e da psicologia, mobilizando todos os recursos disponíveis para a recuperação total.

Além disso, a lei estabelece que, diante do diagnóstico no pré-natal ou logo após o parto, o recém-nascido deve ser encaminhado imediatamente a um centro especializado. Isso exige do clínico máxima atenção diagnóstica para garantir esse direcionamento imediato e o início precoce do tratamento.

Importância do acolhimento às famílias no consultório de odontologia

O acolhimento no consultório deve capacitar os pais para alinhar os cuidados domiciliares aos programas tradicionais de saúde da criança, focando em alimentação e higiene. A principal orientação é habituar o bebê desde pequeno ao manuseio da cavidade bucal, o que dessensibiliza a área e facilita as intervenções futuras.

A abordagem odontológica é essencial para o tratamento da fissura labiopalatal e, portanto, esse acompanhamento deve iniciar o quanto antes. Os cirurgiões-dentistas, por terem papel imprescindível, devem manter-se atualizados sobre o assunto e estudar as novidades e tecnologias criadas para proporcionar mais qualidade de vida.

Afinal, investir tanto em conhecimento qualificado quanto em instrumentais odontológicos de excelência, aliado a um atendimento humanizado e empático, contribui diretamente para um melhor prognóstico da fissura labiopalatina, construindo sorrisos estéticos, funcionais e saudáveis que acompanham o paciente por toda a sua jornada de reabilitação.


Marketing Surya

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2 comentários
  1. João Paulo Charamelli disse:
    31 de maio de 2022 às 18:12

    Oie tenho lábios leoporinos queriam um tratamento dentário

    Responder
    1. Marketing Surya disse:
      2 de junho de 2022 às 12:49

      Olá, João! Como vai?
      Indicamos que busque associações em sua cidade que façam trabalhos específicos com pessoas com fissura labiopalatina ou, então, busca indicação do seu dentista de confiança.

      Abraços!

      Responder
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